Autor de 'Get lucky', Nile Rodgers diz ter sorte de ser 'Forrest Gump do pop

11/09/2013 08h15 - Atualizado em 03/10/2013 12h54

Autor de 'Get lucky', Nile Rodgers diz ter sorte de ser 'Forrest Gump do pop'

Parceiro do Daft Punk, líder do Chic é como personagem de Tom Hanks.
Ele produziu maior hit de Bowie e primeiro álbum nº1 de Madonna: 'Louca'.

Rodrigo OrtegaDo G1, em São Paulo

Nile Rodgers, do Chic, se apresenta no segundo dia do festival Glastonbury (Foto: Reuters)Nile Rodgers, guitarrista do Chic e parceiro de Daft Punk, Madonna, David Bowie, Mick Jagger, Michael Jackson, Diana Ross e outros (Foto: Reuters)

"Você sempre tem que estar lá quando algo acontece?". Essa é a pergunta que Nile Rodgers diz ouvir dos amigos, impressionados com quantos fatos marcantes da música pop ele viveu. Nile se tornou conhecido como guitarrista do Chic, ícone da disco e funk de Nova York nos anos 70. Ele já trabalhou com Madonna, David Bowie, Michael Jackson, Mick Jagger, Diana Ross e outros.

Nile Rodgers abriu shows para o Jackson 5 e foi sampleado no início do hip hop. Após parecer rumar ao ostracismo a partir dos anos 90, gravou o "hit do verão de 2013", segundo ele mesmo: "Get lucky", com o Daft Punk. Agora aposta em Avicii, DJ com quem colaborou e que está em primeiro lugar em vários países, inclusive o Brasil.

"Eu me sinto o músico mais sortudo do mundo", diz Nile ao comentar que os amigos o chamam de "Forrest Gump do pop". A comparação com o personagem de Tom Hanks que vive vários momentos importantes da história norte-americana não o deixa encabulado: "Sempre estou fazendo algo, então coisas acontecem à minha volta", ele diz.

Forrest Gump do pop
Nile Rodgers estava lá em cenas musicais marcantes desde os anos 70
 
Anos 70
- 1973: Abre shows do Jackson 5 com a Big Apple Band.

- 1977: Funda o Chic, de hits disco como 'Le freak'.

- 1979: Produz o hino gay 'We are family', do Sister Sledge.

- 1979: 'Good times', do Chic, é sampeada em 'Rapper's delight', um dos marcos iniciais do hip hop.
Anos 80
- 1980: Produz 'Diana', de Diana Ross.

- 1983: Produz 'Let´s dance', disco mais vendido de David Bowie.

- 1984: Produz 'Like a virgin', 1º disco nº1 na 'Billboard' de Madonna.

- 1985: Produz 'She's a boss', 1º disco solo de Mick Jagger.

1986: Produz 'True colours', de Cindy Lauper.
Anos 90
- 1995: Toca em 'Money', do álbum de Michael Jackson 'History'.

- 1997: 'We are family' é sampleada em 'Getting jiggy wit' it', 1º hit de Will Smith.
Anos 00
- 2003: Indicado pela primeira vez ao 'Rock 'n' Roll Hall of fame'.

- 2004: Toca em 'You had me', maior hit de Joss Stone no Reino Unido.
Anos 10
- 2013: É coautor e grava 'Get lucky', hit do Daft Punk.

- 2013: Toca em 'True', de Avicii, um dos sucessos do ano.

Na conversa com o G1, Nile diz que Madonna "era louca" e foi a pessoa mais esforçada que conheceu. Ele também elogia o Jota Quest, com quem gravou "Mandou bem", e comenta a polêmica performance de Miley Cyrus no VMA. Adivinhe quem estava lá enquanto tudo acontecia?

G1 - Qual é a música deste verão, “Get lucky” ou “Blurred lines”?
Nile Rodgers - 
“Get lucky”. Foi número 1 em mais países. Não digo isso por ser autor, mas por ter conquistado mais países. “Blurred lines” foi número 1 nos EUA. Mas muita gente diz que é por causa do vídeo.

G1 - É difícil competir com um vídeo de mulheres seminuas?
Nile Rodgers -
 Exatamente [risos]. Robin Thicke é meu amigo, e Pharrell também – e meu coautor. Não quero comparar as músicas, mas é uma análise estatística. “Get lucky” conseguiu o primeiro lugar em mais países só pela música, sem clipe.

G1 - O site WhoSampled conta mais de 250 faixas que samplearam coisas do Chic. Você fica feliz ou preocupado por ter direitos autorais “roubados”?
Nile Rodgers - 
Só isso? Foi muito mais! Fico muito feliz. Não me preocupo em ser roubado, é uma coisa que você não pode parar.

G1 - Você nunca processou ninguém por isso?
Nile Rodgers -
 Apenas na primeira vez, por “Rapper’s delight” [faixa de 1979, do Sugarhill Gang, um dos marcos iniciais do hip hop]. Depois nunca tive que me preocupar com isso. Porque as pessoas honestas pedem autorização. E as pessoas que você deveria processar, na verdade não precisa. É só mandar uma notificação, aí elas se retratam.

G1 - O que achou da ideia do Daft Punk e do Jota Quest de ter você no estúdio? Eles poderiam apenas emular seu estilo.
Nile Rodgers - 
É mais divertido assim. A diferença foi que o Jota Quest tinha a música preparada e eu só cheguei e fiz o que sei, com a guitarra do meu estilo. No Daft Punk, toquei e eles construíram a canção em torno disso. Eu estava lá desde o início. Mas é normal entrar no final também.

G1 - Você trabalhou com muitas das maiores estrelas do pop. Entre Madonna, David Bowie, Michael Jackson e Mick Jagger, quem te impressionou mais?
Nile Rodgers - 
Todos foram inacreditáveis. Por exemplo, Madonna foi a pessoa mais esforçada que eu conheci. Eu a encontrei no início da carreira, e nunca vi alguém que trabalhasse tão duro.David Bowie, por outro lado, foi o artista mais interessante e único com quem trabalhei. Ele vê o mundo de maneira muito diferente da maioria. Todos são especiais.

Agora estou trabalhando com Avicii, menino de 23 anos fazendo mais hits que você imagina. Ele é como eu aos 23. Todos me criticam por trabalhar com esse moleque. E eu respondo: ‘Quantos anos acha que eu tinha quando escrevi ‘Le freak’, single mais vendido da história da Atlantic Records? 25’. Avicii é meu parceiro favorito. E eu trabalho com muita gente.

G1 - O que te faz dizer que Madonna é a pessoa mais esforçada que você conheceu?
Nile Rodgers - 
Não importa o que acontecesse, ela trabalhava mais que todo mundo. Nunca pedia uma pausa, nunca! Especialmente no começo, em 1984. Ela era louca. E eu trabalho duro, nunca durmo. Ela estava tentando me superar!

Veja só o meu maior disco, 'Like a virgin', de Madonna.  Aquela faixa me deixou desconfortável. Achei que era uma música só ok. Aquele disco tem “Angel”, “Material World”. 'Like a virgin' não estava no mesmo nível
Nile Rodgers, guitarrista
 

G1 - Você estava no VMA deste ano, certo? O que achou da performance de Miley Cyrus?
Nile Rodgers - 
Não sei por que ficaram tão preocupados. Eu vi Madonna beijando Britney. Vi Madonna quase pelada, com o sutiã de Jean Paul Gaultier, praticando sadomasoquismo. Miley Cyrus só estava simulando masturbação com uma música que teve um vídeo com garotas peladas. Fez sentido para mim. Acho que é porque as pessoas a viram no Disney Club. Se fosse uma artista nova com esse show hardcore, hipersersexualizado, como Madonna, Lady Gaga, J-Lo, nada disso teria acontecido. Elas são todas bonitas e sexy. Na idade delas, sexo é muito importante. Veja só o meu maior disco, “Like a virgin”, de Madonna.  Aquela faixa me deixou desconfortável. Ela falou: ‘Temos que fazer!’. Eu disse que não. Mas ela: ‘Vamos sim’.

G1 - Por que você ficou desconfortável com “Like a virgin”?
Nile Rodgers - 
Achei que era uma música só ok. Aquele disco tem “Angel”, “Material World”, músicas ótimas. “Like a virgin” era tipo “I made through da doo da da” [imita com ironia], não estava no mesmo nível. Mas era o contexto. Era Madonna sendo esperta o bastante para saber que mulheres jovens estavam ligadas na sexualidade. E foi um gesto enorme naquela época. Miley Cyrus faz o mesmo. Ela diz: ‘Ei, nos masturbamos, todas fazemos isso, é assim que tomamos consciência do nosso corpo’. Sem problemas.

O guitarrista e produtor Nile Rodgers (Foto: Jerry Barnes)O guitarrista e produtor Nile Rodgers em foto no
estúdio com o Jota Quest (Foto: Jerry Barnes)

G1 - Então você ficou incomodado, mas hoje entende o gesto de Madonna?
Nile Rodgers - 
Sim. Ela foi uma das que me fez entender isso. Eu era um homem crescido. E acredite, eu sou da época da liberação sexual feminina. Mas mesmo assim fiquei incomodado, porque sabia que o público dela era muito jovem. Ela me fez entender. “Nile, para uma garota jovem, alguém pensando em fazer sexo, isso é uma coisa muito importante: perder a virgindade. Com quem vai ser a sua primeira vez".

G1 - Entender isso mudou algo para você? Pois o tipo de som que você faz lida bastante com a sexualidade.
Nile Rodgers - 
Sempre tive boa compreensão de música para mulheres. Lembre-se, “Like a virgin” foi em 1984, bem antes de eu trabalhar com Diana Ross. Trabalhei em grandes hinos para a comunidade gay nos anos 70. “I’m coming out”, “We are Family”. Essa questão de “Like a virgin” foi mais na letra, não no espírito e na consciência da época. Foi só Madonna percebendo bem sua base de fãs.

G1 - Alguns anos atrás, todo mundo só falava em soul. O disco e o funk não estavam na moda, mas hoje parecem a bola da vez. O que acha dessa mudança?
Nile Rodgers - 
Acho que o funk foi muito renegado. Não sei se realmente voltou, mas vou fazer tudo o que posso para tentar trazer de volta.

G1 - Você conhece algo que chamam aqui de funk carioca? É derivado do Miami bass, e muita gente diz que não é o “funk real”, como o seu.  Acha que o seu funk é “o real”?
Nile Rodgers -
 Não conheço o funk carioca. E não é meu papel dizer “meu funk é de verdade, o deles não”. Meu funk é algo que se tornou natural para mim. Porque eu não queria me tornar como o funk do meio-oeste ou da costa oeste. Queria ter o meu estilo nova-iorquino. Que é muito diferente de Parliament, Funkadelic. Amo a todos, mas não queria soar domo eles. Éramos uma nova era do funk.

Nile teve câncer de próstata e diz que 'Get lucky' o ajudou a vencer a batalha.

G1 - Você tem um som muito particular. Tocou com muitos artistas que gostam de se reinventar, como Madonna e Bowie. Ao contrário deles, mantém um estilo constante. Pensa nisso?
Nile Rodgers -
 Faço a música que sinto. Quero o melhor para a música ou o artista. Tenho orgulho de ter meu estilo. Acredito que possa funcionar com qualquer um. Com alguém mais tradicional ou alguém novo, como Avicii.

G1 - Como você conheceu o Jota Quest e por que se interessou neles?
Nile Rodgers - 
Meu baixista do Chic está produzindo o disco deles. Ele tocou algumas músicas e soavam “funky”. E eu pensei “Uau, isso vem do Brasil?”. E falei: “Coloque para gravar, vamos lá!”.

Taylor Swift recebe prêmio por 'I knew you were trouble' das mãos de Pharrell Williams, Daft Punk e Nile Rodgers no VMA 2013 (Foto: Rick Diamond/Getty Images for MTV/AFP)Taylor Swift recebe prêmio por 'I knew you were
trouble' das mãos de Pharrell Williams, Daft Punk
e Nile Rodgers no VMA 2013 (Foto: Rick Diamond/
Getty Images for MTV/AFP)

G1 - Jota Quest é uma banda de sucesso comercial no Brasil. Eles teriam chance no mercado dos EUA? Alguns os comparam com o Jamiroquai.
Nile Rodgers -
 Se eu fosse o produtor deles, o que eu teria feito é uma colaboração. A melhor coisa da música atual são os duetos. Você não vê Justin Timberlake, Daft Punk ou outros grandes artistas sem alguém junto. Talvez no Brasil isso não seja tão comum, mas deveria.

G1 - Tem planos de tocar no Brasil?
Nile Rodgers - 
Temos planos de ir à América do Sul. Mas apenas no Chile e Argentina. Não tenho certeza se iremos ao Brasil. O problema é datas livres. Adoraria tocar aí, fazer uma jam com o Jota Quest.

G1 - Você disse que o sucesso de “Get lucky” te ajudou a se livrar do câncer. Como?
Nile Rodgers - 
Música é o que me faz sentir bem. Não sei se faz algo fisicamente, mas espiritualmente sim. Tive que fazer tanta coisa para “Get lucky”. No meio da turnê do Chic, tive que voar para gravar esta e “Lose yourself to dance”, além do vídeo. Da Suíça para a Califórnia para a Alemanha etc. Eu era o porta-voz do projeto, os robôs só fizeram duas entrevistas. Eu fiz 30 ou 40. Gastei muita energia, mas também foi um tempo em que eu não pensava no câncer.

Eu me sinto o músico mais sortudo do mundo."
Nile Rodgers, guitarrista

G1 - Você se sentia mal na época de gravar “Get lucky”?
Nile Rodgers - Não. Quando eu toco, nunca me sinto mal. Nem me lembro, porque eu guardo os dias bons. Nos dias em que eu estava mal, sei que não estava tocando. Estava na cama, ou andando por Manhattan. Tirei um período depois da minha cirurgia para não fazer nada. Depois continuei a trabalhar. Depois disso, ainda tive que fazer duas cirurgias, mas mesmo assim não perdi nem um show. Saía do hospital direto para o palco.

G1 - Você esteve em vários momentos importantes da música pop desde os anos 70. Você se vê como um Forrest Gump da música pop [personagem de Tom Hanks que participou de vários momentos da história norte-americana]?
Nile Rodgers - É engraçado, muitas pessoas me chamam assim, o Forrest Gump do Pop. “Você sempre tem que estar lá quando algo acontece?”. E eu digo que é porque eu saio muito. Sempre estou fazendo algo, então coisas acontecem à minha volta – muitas vezes eu sou o motivo para acontecerem. Eu me sinto o músico mais sortudo do mundo.

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